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ENTREVISTAS

Prof.ª Vera K. Chueiri.
Prof.ª Silvia Helena Soares Schwab
Prof.ª Maria Tarcisa Silva Bega


Entrevista Direitos Humanos:

Nome: Vera Karam de Chueiri.
Formação: Graduada em Direito pela UFPR, Mestre e Doutora em Filosofia pela New School for Social Research,N.S.S.R(Estados Unidos) e Mestre em Direito pela UFSC.
Área de Atuação: Colaborada do Tribunal de Ética da OAB/PR, professora adjunta de direito constitucional do Departamento de Direito Público da UFPR (nos programas de graduação e pós-graduação em Direito). Vice- coordenadora da Cátedra Sergio Vieira de Melo para Refugiados ACNUR/UFPR, membro do Instituto de Justiça de Transição IRI/USP e membro permanente do Fórum Permanente de Educação e Direitos Humanos (EDH).

1. A temática dos Direitos Humanos está presente nas discussões sociais, políticas e educacionais e aponta para os princípios de universalidade, indivisibilidade e interdependência. Como podemos compreender essa universalidade em um mundo extremamente plural?

Realmente esses três princípios sempre nortearam as discussões em Direitos Humanos e hoje eles têm que ser repensados, sobretudo a questão da universalidade numa sociedade plural. Eu imagino que é possível pensar universalismo e particularismo em relação aos direitos humanos, sem sacrifício de algo que é comum. Quando se fala em direitos humanos, que é uma espécie de fio condutor, não importam as situações peculiares... você não vai deixar de ter esse fio condutor, que para mim é o respeito pela dignidade humana. Então eu vejo assim... nós temos que respeitar as culturas diversas e, em nome dessas culturas, não podemos pretender impor um padrão, do ponto de vista da cultura ocidental, como também não podemos pretender um padrão que, além de ser ocidental é eurocêntrico. Porque toda a história ocidental sobre os direitos humanos e fundamentais nasce nesse contexto do velho mundo, até que as nações novas como os Estados Unidos e Brasil trazem alguma contribuição, sobretudo quando apresentam cartas de direitos... falo sobre os Estados Unidos que se formam após a independência das colônias e falo também do Brasil republicano. Então, vejo que sem querer impor um padrão, e aí apostar num universalismo, é que cessam as diferenças culturais, cessa esse pluralismo... temos que manter como fio condutor o respeito a dignidade humana. Também não podemos aceitar um relativismo cultural, que sacrifica direitos humanos em nome de uma diversidade absoluta, e de vários particularismos ou em nome de certa excentricidade de direitos humanos. Quero dizer com isso que, não é porque uma comunidade, seja da África, seja da América Central, seja do Oriente Médio... não é porque ela tem uma cultura milenar que eu devo achar que se possa desrespeitar essa particularidade. O que estou querendo dizer é que não estou impondo um padrão comum a todos... é a visualização de uma idéia que é a de dignidade humana. Como ela se define ou, melhor dizendo, o que significa é resultado de uma construção histórica... pode ser que a dignidade humana tenha um significado mais moral para determinadas comunidades do que para outras, mas é preciso se observar o sentido dessa dignidade humana, porque senão também, em nome de algum particularismo eu aceito uma série de violações de direitos. Nós sabemos que existem algumas intolerâncias religiosas em relação à mulher, mutilação do corpo feminino, violação de sua integridade física, porém eu quero que na construção histórica da comunidade que pelo menos se tenha a oportunidade de discutir acerca sobre um possível ou não violação dos direitos. Porque se não há possibilidade dessa discussão então entramos em searas totalitárias e fundamentalistas, que irão tentar, em nome do seu particularismo, no fundo justificar uma série de atrocidades, essa é minha idéia. É difícil, eu diria que talvez é o tema mais espinhoso na questão do direito... esse dilema universalidade e particularismo. Entretanto, tem que ter algo que não é imposto, que não pode ser imposto, esse algo comum que deve ser pensado, debatido, dialogado... isso é, para mim, a idéia de dignidade humana, que também não está dada formalmente, o tema precisa ser discutido a exaustão. Em última análise, sem sacrifício de suas identidades, que sejam reconhecidas... que esse reconhecimento gere algo comum... o reconhecimento das diferenças não significa atrocidades, que aceita qualquer tipo de conduta violadora da integridade humana, seja física ou moral.

2. O Sra. considera que esses princípios são compreendidos ou ao menos
considerados como válidos por todos os cidadãos?

É um dilema... que a pergunta coloca ...eu diria que sim... se se partir do pressuposto que todos cidadãos compartilham o mesmo espaço comum nesse mundo, aonde todos os cidadãos, respeitadas as suas diferenças, são reconhecidos enquanto tais. Se houver a possibilidade de todos, como a pergunta diz, participarem de um diálogo, que é permanente, em processos de decisão que são permanentes, ou seja, se todos tiverem voz, ainda que resguardadas as suas diferenças, eu já posso dizer que todos estão sendo reconhecidos e é com esse reconhecimento que esses princípios ganham generalidade.

3. Além da função formativa e social, a Universidade é vista como uma das instituições para a possível transformação e promoção de uma educação voltada para os direitos humanos. Através de sua experiência acadêmica o Sra. considera os cursos de graduação e pós-graduação da UFPR cumprem também este papel de formadores de cidadãos cientes de seus compromissos com o respeito aos direitos humanos?

Eu penso que sim... vou falar do lugar de onde estou e de minha experiência, que é a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná. O nosso programa de pós-graduação já tinha uma área de concentração em Democracia e Direitos Humanos e agora, recentemente, com a reforma curricular do curso de graduação, nós temos uma área específica de teoria do Direito e Direitos Humanos... não que antes não acontecesse essas discussões sobre o tema, mas elas estavam pulverizadas na graduação em disciplinas como Direito Constitucional, Direito Internacional, Direito do Trabalho, Direito Penal, a História do Direito ou a Teoria do Direito. Então, que possibilidade privilegiada a Universidade nos dá agora... de ter um currículo focado na área que é de Direitos Humanos, onde podemos ofertar um grande número de disciplinas optativas de Direitos Humanos, que terão um perfil plural, onde cada Departamento, dentro das suas características, vai oferecer essas disciplinas.... o que irá fomentar, ainda mais o debate sobre Direitos Humanos, mas a própria questão sobre a Educação em Direitos Humanos. O professor Gediel e eu participamos da elaboração do Plano Nacional em Educação e Direitos Humanos (PNEDH) e acreditamos piamente que não dá para pensar, nem em Direito nem em Educação, sem esse compromisso com os Direitos Humanos.

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Nome: Sílvia Helena Soares Schwab
Formação: Doutorado em Ciências Geodésicas pela UFPR (1999)
Cargo ou Função: Professora adjunta da Universidade Federal do Paraná. Diretora do Setor de Ciências Exatas da UFPR
Breve Biografia: Possui graduação em Licenciatura e Bacharelado em Física pela Universidade Federal do Paraná (1979), mestrado e doutorado em Ciências Geodésicas pela Universidade Federal do Paraná (1999). Recentemente tem se dedicado a projetos de Educação em Direitos Humanos.

1. A temática dos Direitos Humanos está presente nas discussões sociais, políticas e educacionais e aponta para os princípios de universalidade, indivisibilidade e interdependência. Como podemos compreender essa universalidade em um mundo extremamente plural?
“Na realidade eu tenho me dedicado aos direitos humanos através da Educação em Direitos Humanos exatamente pela minha formação. Eu não sou da área, sou formada em física e meu doutorado também não é na área. Comecei a me interessar por estas questões não pela minha atuação como professora, mas pela atuação administrativa. A Instituição é um mundo plural, onde você trabalha basicamente com pessoas. Foi a partir deste trabalho na direção do Setor, com as pessoas mais diferentes possíveis que eu me interessei pelo tema. Enfrentamos no dia a dia, situações de preconceito, de discriminação velada e de desamparo.
Cito como exemplo a situação dos estudantes, que tem toda uma normativa legal que os protege, mas também enfrentamos professores que as ignoram intencionalmente ou por desconhecimento e mediar o desequilíbrio de forças entre estas categorias da comunidade universitária em distintas situações.
Para ensinar Física é preciso compreender que existe todo um imaginário atrelado. As pessoas muitas vezes são preconceituosas em relação à própria Física e em relação à Matemática. A partir desta constatação cheguei à conclusão de também o são nas questões cotidianas, em relação aos mais diversos temas, inclusive Direitos Humanos. Concluí que eu poderia também tentar ensinar um pouco dos direitos fundamentais e trabalhar com estas questões cotidianas mesmo em aulas de Física, para que as pessoas no dia-a-dia se dêem conta dos inúmeros desrespeitos aos direitos individuais e coletivos. Da mesma forma que utilizo o imaginário na Física, também posso utilizar o imaginário para ensinar direitos humanos, mesmo em minha área.
Muitas vezes, se você não conhece a Declaração Universal dos Direitos Humanos você não tem a menor idéia de que a questão está presente no nosso dia a dia, existem exemplos de desrespeito na nossa própria Instituição. Nós nos defrontamos com inúmeras situações, mesmo dentro da minha área, a Física, é bastante comum as pessoas dizerem que tem muito poucas mulheres na Física, e isso é verdade. Existe razão, em parte por questões culturais. O fato é que existem poucas mulheres atuando na área de Física, como em muitas outras profissões. Muitos pais dizem, para uma filha: O que você vai fazer com a Física? Você vai ter dificuldades... ou como engenheiras aeronáuticas ou como mulheres militares, e assim vai. (não daria futuro!). Então já existe na própria família um desincentivo para que as mulheres entrem em algumas áreas, porque são encaradas como áreas “não favoráveis as mulheres”. A questão de gênero, e do necessário papel igualitário da mulher nas sociedades aparece nesse caso.
Em relação ao nosso dia-a-dia aqui na Direção do Setor de Ciências Exatas, enfrentamos situações com servidores, professores, técnico-administrativos, alunos, enfim, por exemplo, com filhos portadores de necessidades especiais e que não tem um atendimento especial da Instituição. O necessário atendimento integral a estas pessoas, por exemplo, isso é feito muito mais na base da camaradagem do que de um esforço Institucional para tenham este apoio. Esse é só um exemplo, há também outras questões, como de discriminação racial. Não precisamos ir muito longe para a gente descobrir que é necessário trata do tema com mais profundidade.
Existem algumas outras situações em que eu fico profundamente incomodada: por exemplo, depois que adotamos o sistema de cotas, eu não me refiro às cotas raciais, me refiro ás cotas para escolas públicas. É comum você ver alunos com fragilidade social ou cultural, ou da sua própria formação, escutarem comentários de outros do tipo: “esse entrou pelas cotas”. Então são formas e formas de discriminação que acabam aparecendo.
Voltado a sua pergunta... é difícil você tratar essa pluralidade de problemas, mas você pode tentar alertar as pessoas de que existem princípios fundamentais, estabelecidos em 1948. No mínimo as pessoas têm que saber que existe uma Declaração Universal dos Direitos Humanos e uma vez na vida lerem, mesmo que superficialmente, seus artigos. Nós fizemos em 2004, 2005, 2006, um grande movimento Institucional: colocar a Declaração visível nas paredes da UFPR. Se a gente conseguir que 5% das pessoas que transitam pela nossa Universidade, possam ler a Declaração já é um bom ganho, já vale a pena”.

2. Além da função formativa e social, a Universidade é vista como uma das instituições para a possível transformação e promoção de uma educação voltada para os direitos humanos. Através de sua experiência acadêmica a Sra. considera que os cursos de graduação e pós-graduação da UFPR cumprem também este papel de formadores de cidadãos cientes de seus compromissos com o respeito aos direitos humanos?
“Veja tem havido um grande esforço para que se cumpra esse papel, mas ainda há muito o que fazer, porque na realidade, mesmo que algumas questões estejam evidentes, elas não são tratadas normalmente no viés dos direitos humanos, são questões que ficam bastante escondidas. A Universidade tem constituído alguns movimentos através da Cátedra de Cultura da Paz, que é uma Cátedra da UNESCO, que é outorgada a nossa Instituição que tem desempenhado, na medida do possível, o seu papel. Existem vários grupos que trabalham com questões pontuais, a questão da violência, a questão das pessoas portadoras das necessidades especiais, etc., existem várias iniciativas que são basicamente de um grupo pequeno de pessoas. Criamos uma disciplina transversal em direitos humanos, que tinha o caráter de disciplina complementar formativa, que a gente ofertou em 2006, como projeto piloto. Foi feita a publicação dos resultados, mas nós não tivemos condições de seguir com a disciplina, porque ou você tem a Universidade toda colaborando e com um apoio Institucional para sua implantação, oferta e concretização, como um movimento de toda a Instituição ou ela acaba sendo uma iniciativa isolada de grupos, como tem ocorrido. É verdade que nós temos diversos grupos trabalhando nas questões, mas efetivamente o movimento coordenado de ensino e de prática em Direitos Humanos não ocorre. Não é só o ensino, é a pratica dos direitos humanos que temos muito o que avançar. Não é só na nossa Instituição, são em todos os níveis de educação fundamental, média, aí existem iniciativas interessantes, eu mesma participei de uma iniciativa, um projeto coordenado pela Universidade Federal da Paraíba de capacitação em direitos humanos docentes de ensino médio da rede pública de ensino de todo Brasil. Mas sempre você se defronta com enormes dificuldades, até pela dimensão de nosso país, em formar muita gente. É essa questão que a nossa universidade também tem que abraçar como causa, e estar presente nos mais diversos momentos formativa. Existem grupos interessados, mas não uma iniciativa efetiva da Instituição, em ter associada à sua imagem, um papel de real transformadora da sociedade na questão de direitos humanos”. Não creio que as disciplinas de graduação e pós-graduação da UFPR na concepção ora oferecida, cumpram o papel formador de cidadãos com plena consciência do respeito aos direitos humanos fundamentais.

por Luana Herrera Garcia.

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Nome: Maria Tarcisa Silva Bega
Formação: Doutora em Sociologia.
Cargo: Professora Adjunta IV do Departamento de Ciências Sociais.
Função: Diretora do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes.
Breve Biografia: Atua no Programa de Pós-Graduação em Sociologia, nas linhas de pesquisa Cultura e Sociabilidades e Instituições e Poder membro titular dos: Instituto Mercosul de Estudos Avançados (IMEA); Conselho Estadual da Mulher (Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania do Paraná), Conselho Estadual de Educação (Secretaria de Estado da Educação do Paraná) e do Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná (Secretaria de Estado da Cultura). Representante institucional da UFPR na Cátedra Unesco de Cultura de Paz.

1. A temática dos Direitos Humanos está presente nas discussões sociais, políticas e educacionais e aponta para os princípios de universalidade, indivisibilidade e interdependência. Como podemos compreender essa universalidade em um mundo extremamente plural?
“O período que mais se fala em universalidade é quando o mundo está fragmentado, eu acho que o que você chama de um mundo pluralista, eu poderia dizer um mundo também fragmentado, mas é isso que permite que a individualidade possa se manifestar, que as diferenças possam se colocar. É o respeito à alteridade, ou seja, o respeito a diferença, as características de cada um. Acho que só é possível se a gente pensar que para que o eu possa existir é necessário que haja um nós, que haja um coletivo, e nesse sentido só dentro de um processo civilizador, que reconhece por antecipação que todos são iguais, que todos têm direitos, apesar e, tão somente, porque são humanos. Isso é o que garante a universalidade, ou seja, isso nos faz iguais. Portanto, porque somos humanos, não importa se homens ou mulheres, ricos ou pobres, gordos ou magros, portadores ou não de necessidades especiais... esse conceito é muito complicado, se nascemos no oriente ou no ocidente, se somos do norte ou do sul, de clima quente ou clima frio, nada disso importa, ou melhor, tudo isso só pode se manifestar com a sua singularidade, com respeito a diferença se a gente tiver o principio que somos humanos. Eu acho que a pluralidade só é possível se a gente tiver uma idéia universal, ou seja, é a partir daí que o direito das mulheres pode se manifestar, porque as mulheres só podem se reconhecidas na sua singularidade se a sua condição humana tiver respeitada antes de tudo, porque senão nós vamos discutir quem é sujeito e quem não é, então é necessário que a gente reconheça que todos são sujeitos, todos são humanos, para que daí a gente possa reconhecer que cada um de nós é diferente, que podemos nos organizar e que podemos nos manifestar e defender a nossas posições. É um conceito dialético eu diria, essa relação entre a universalidade e um mundo fragmentado.
Só quando nos reconhecemos, quando a cultura tem o direito de se manifestar em determinadas formas, por exemplo, na moral, em determinadas formas de se alimentar, determinados mitos que devam ser preservados... isso a gente só consegue fazer se reconhece que todos têm direito, então a idéia da universalidade é como um principio fundante, não é só falar que somos todos humanos eu não estou homogeinizando, eu estou dando uma condição essencial, ou seja todos temos direitos a viver, a morar, a manter nossas relações familiares, sociais, temos direito a vida, ao trabalho, aqueles que estão na Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana, ou seja um documento que só foi possível ser escrito, no momento que o planeta corria o mais sério risco de se arrebentar, ou seja, ao final da segunda guerra, nos temos uma Europa totalmente devastada, quando nós temos os países do eixo derrotados, quando a gente tem o Japão vivendo o horror da bomba atômica, é que nesse momento é como se o homem acordasse pra sua humanidade. É paradoxal, mas eu acho que é exatamente por isso que é dialético... porque é nesta justa situação que a gente vai ter idéia de universalidade”.

2-O Sra. considera que esses princípios são compreendidos ou ao menos considerados como válidos por todos os cidadãos?
“Olha, eu acho que a gente ainda esta construindo uma idéia de respeito e de consciência sobre os trinta artigos que estão presentes na Constituição, mas eu sou otimista, mas não é um otimismo infundado não, é um otimismo a partir de uma análise histórica. Se nós olharmos todas as leis que vem a partir da Declaração, que é lá do final dos anos 40, todos os Códigos Legais, todos os documentos legais, todos os documentos construídos: pela união de países, as grandes declarações na área do trabalho, na área dos direitos da mulher, dos direitos da criança, dos direitos dos idosos, dos direitos às diferenças, as minorias, aos direitos dos negros, direitos dos índios, todas elas são apoiadas nesses princípios, é como se ao escrever a Declaração nós tivéssemos feito os 30 mandamentos da civilização. Há um grande movimento da humanidade em perseguir esses 30 mandamentos. Acho que tem muita coisa por fazer, mas eu digo eu sou otimista por que se a gente de olha o conjunto de leis que aconteceram em plena America Latina, eu foi vitima de tantas ditaduras... o Brasil mesmo, a nossa própria Constituição, ela emana da Declaração, inclusive ela repete literalmente trechos da Declaração, ou seja, o que nós estamos construindo aqui, uma idéia de cidadania, uma cidadania sem adjetivos. Não é uma cidadania para rico, para branco e para homem, é uma cidadania para todos. Ainda é um princípio, o que nos precisamos é no ordenamento jurídico que faça do princípio uma Lei efetiva, e aí, se a gente olha no caso brasileiro... prefiro pensar no caso brasileiro... nós caminhamos no sentido da construção de uma cidadania, no sentido da construção primeiro de uma idéia de sujeito, ou seja de pessoas livres, com direitos de ir e vir, direito de votar e ser votado, e que por serem humanos e por serem brasileiros tem determinados direitos, como o de morar de trabalhar de ter acesso a escola, a saúde, a educação, ao lazer, o atendimento em momentos de vulnerabilidade social, seja na velhice, na infância, em situações de pobreza, então o que, que nos temos aí? A gente constrói cada vez mais estatutos legais que não só definem os princípios, mas também, isso é o mais importante, definem os mecanismos de garantia desses princípios, ou seja, quando você estabelece direitos e deveres, quando você estabelece mecanismos de financiamento, e quando você delega para determinadas instancias que é do Governo Federal, Estadual ou Municipal, ou que são de determinadas instituições a obrigação e a função de cumprir esses direitos, então nesse sentido eu sou otimista, eu acho que estes estatutos legais contribuem, finalizam e orientam a construção de uma idéia de cidadania”.

3- Além da função formativa e social, a Universidade é vista como uma das instituições para a possível transformação e promoção de uma educação voltada para os direitos humanos. Através de sua experiência a senhora considera que os cursos de graduação e pós-graduação da UFPR cumprem também este papel de formadores de cidadãos conscientes de seus compromissos com o respeito aos direitos humanos?
“Eu diria o seguinte... Toda vez que falo em educação... a gente tem que ver que a escola faz parte da educação, porque no fundo é o que nos temos no caso brasileiro. Sempre digo em aula, nós temos leis mais do que suficientes, nós não precisamos de mais leis, o que precisamos é fazer o enfrentamento de uma cultura extremamente autoritária, que é fruto da nossa experiência colonial, que é fruto da nossa experiência escravocrata, ou seja, a cinco gerações atrás a metade da população não era sujeito, o que eles eram negros, escravos, mulheres ou crianças. As mulheres só vieram votar no século XX, os negros foram libertos da forma mais terrível, porque primeiro que jogaram fora os velhos que já não serviam para o serviço, jogaram fora as crianças que não podiam produzir, e depois jogaram fora os adultos, e foram simplesmente largados, sem nenhum mecanismo de proteção por parte do Estado, então, criou-se um amalgama... a gente tem toda uma história da pobreza, uma pobreza que tem que lidar com jeitinho, que tem que aprender a viver nos meandros, nos favores dos poderosos. Nosso grande desafio é transformar aquilo que hoje é texto legal que garante direitos em algo constitutivo do cidadão e não mais uma forma de presente, um favor. Acho que esse é o nosso grande desafio e o papel da escola é desmontar a cultura do favor, porque a cultura do favor é uma cultura autoritária, uma cultura que joga contra os direitos, quando eu vou lá, faço o meu trabalho bem feito e alguém agradece por eu ter feito, eu não fiz um favor, eu fiz a minha obrigação, e ele não recebeu um favor, ele recebeu o resultado de um direito. Aí eu acho que a escola tem o papel fundamental, porque a escola cumpre o papel da socialização das crianças, eu acredito na escola! Não é só da Universidade, os problemas que nós temos aqui são resultados de um processo de socialização primária, na família, na escola... se na família não é possível, a escola tem de trabalhar essa noção de direito, mas não só a escola, também todos os organismos da sociedade civil, a igreja, os sindicatos, as organizações de terceiro setor, os clubes comunitários, etc. Esse é o espaço da cidadania, é neles que se manifesta, que se exercita, que se aprende, porque também não é uma coisa dada, nós não nascemos cidadãos, nós nos tornamos cidadãos num processo de socialização. A gente vai ser mais ou menos cidadãos, quanto maior ou menor for o grau de democracia interna da sociedade, numa sociedade autoritária, não há espaço para a cidadania, há espaço para um subserviente para que alguém mande e alguém obedeça... esta é a regra do jogo... para que a gente transforme essa idéia, de que cada individuo é portador de um direito, é sujeito de um direito, parece que aí é um trabalho para pelo menos uma geração ainda. Mas olhando para trás, nesses 20 anos de Constituição, eu acho que a gente avançou, então sou otimista neste sentido, numa perspectiva história me faz ser otimista...”

por Luana Herrera Garcia

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